358S - Maria e a coragem de escolher a própria sanidade Por Marcia Akahoshi – 22 janeiro de 2026



Existem trabalhos que exigem mais do que preparo técnico. Exigem estrutura emocional, presença e, muitas vezes, uma capacidade de suportar realidades que ultrapassam aquilo que imaginamos ser possível sustentar. Nem sempre percebemos, no início, o quanto determinadas experiências podem nos atravessar. E, quando percebemos, muitas vezes já estamos profundamente envolvidos.

Há um limite silencioso dentro de cada ser humano. Um ponto em que continuar deixa de ser força e passa a ser desgaste. Reconhecer esse limite não é fraqueza. É consciência.

A história de Maria revela esse ponto com uma clareza difícil de ignorar.

Hoje, Maria toma café, almoça e janta com seu marido e sua filha de sete anos. Vive algo que, para muitos, pode parecer simples, mas que para ela se tornou essencial. Está em paz. Está presente. E, acima de tudo, está em um lugar onde conseguiu priorizar aquilo que, ao longo do tempo, percebeu ser inegociável: sua saúde mental, sua família e seus vínculos.

Nem sempre foi assim.

Maria trabalhava como auxiliar de necrópsia, em uma rotina intensa de doze horas de trabalho seguidas por vinte e quatro horas de descanso. Havia acompanhamento psicológico e psiquiátrico previsto nos períodos de pausa, mas, no início, ela acreditava não precisar desse suporte. No entanto, essa percepção não se sustentou por muito tempo.

Após cerca de dois meses de trabalho, a realidade começou a se impor de forma mais dura. O contato diário com corpos mutilados e marcados pela violência passou a atravessá-la de maneira profunda. Aquilo que antes era função começou a se tornar presença constante dentro dela. As imagens não ficavam no ambiente de trabalho, elas a acompanhavam.

Para continuar exercendo sua atividade, passou a fazer uso de medicação. Ainda assim, o descanso não vinha. Deitava-se à noite e, no lugar do silêncio, encontrava as cenas que havia presenciado ao longo do dia, repetindo-se em sua mente, impedindo que o corpo e a mente encontrassem repouso.

Durante dois anos, sustentou essa rotina.

Ao me contar sua história, surgiu uma pergunta inevitável. O que fez com que ela encontrasse coragem para sair daquele trabalho, considerando que havia passado por um concurso público e recebia um salário de nove mil reais? Hoje, trabalhando como motorista de aplicativo por cerca de quatorze horas diárias, sua renda líquida gira em torno de seis mil reais.

A resposta não veio como justificativa racional, mas como reconhecimento de um limite que havia sido ultrapassado.

Ao longo desse período, ao lidar diariamente com situações de extrema violência, Maria começou a perceber mudanças dentro de si. O contato constante com a maldade humana não permaneceu apenas como observação, ele passou a moldar a forma como ela via o mundo. Aos poucos, o medo começou a ocupar um espaço cada vez maior.

Esse medo encontrou um ponto ainda mais sensível quando passou a ser direcionado à sua filha. Crianças da mesma idade que a sua apareciam com frequência entre os casos que ela atendia, e isso fez com que a percepção de risco se ampliasse de maneira intensa. O que antes era realidade profissional passou a se transformar em possibilidade constante dentro da sua mente.

Ela começou a viver em estado de alerta.

Tudo podia ser uma ameaça. Tudo podia representar perigo. Esse sentimento contínuo de vigilância foi se tornando insustentável, gerando um estado psicológico que já não lhe permitia viver com equilíbrio.

Foi nesse ponto que a decisão aconteceu.

Não como um plano estruturado, mas como uma necessidade. Uma escolha pela própria sanidade, pela preservação daquilo que ainda precisava ser protegido dentro dela.

Ao longo da conversa, uma outra pergunta surgiu, não como resposta, mas como tentativa de compreensão.

Como um ser humano pode cometer tanta violência contra outro, especialmente contra uma criança que sequer compreende o que é o mal, se, ao mesmo tempo, acreditamos que todos carregam em si uma essência divina?

Maria respondeu com sinceridade que não sabia.

E, naquele momento, compreendi que essa não era uma pergunta que exigia uma resposta imediata, mas uma reflexão mais profunda, talvez uma daquelas que nos acompanham ao longo da vida, não para serem resolvidas, mas para serem contempladas.

Porque existem experiências que não se explicam apenas pela lógica.

E talvez seja justamente diante delas que a vida nos convida a escolher, não o entendimento completo, mas o caminho que preserva aquilo que ainda pode permanecer íntegro dentro de nós.


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