301s - Quando a vida nos atravessa, aprendemos o valor de simplesmente viver ( 29 de setembro de 2025)


Ao longo da vida, fui percebendo algo que se repete de formas diferentes, mas com a mesma essência: quase sempre só reconhecemos o valor daquilo que temos quando, de alguma forma, corremos o risco de perder.

É como se a presença só se tornasse visível diante da ausência.

Lembro-me de quando tive um infarto e permaneci cinco dias na UTI. Durante aquele período, algo aparentemente simples me foi tirado: o banho. Quando finalmente pude voltar a sentir a água no corpo, vivi uma experiência que jamais esqueci. Não era apenas um banho. Era um encontro profundo com algo que sempre esteve ali, mas que eu nunca havia realmente percebido. Foi, sem dúvida, o melhor banho da minha vida.

Não porque ele fosse diferente.

Mas porque eu era.

Em outro momento, conheci uma senhora que havia vivido a guerra. Havia nela um cuidado silencioso com as coisas mais simples. Ao descascar uma maçã, fazia isso com tamanha delicadeza que a casca se tornava quase transparente. Não era técnica. Era consciência. Quem já viveu a falta aprende a honrar o que tem de uma forma que não se ensina, apenas se experimenta.

Da mesma forma, alguém que já esteve entre a vida e a morte por falta de ar passa a respirar de outro jeito. O ar deixa de ser automático e passa a ser percebido como aquilo que realmente é: sustentação da vida.

E então surge uma pergunta inevitável.

Precisamos perder para valorizar?

Ou existe um caminho em que possamos reconhecer a grandeza da vida enquanto ainda estamos vivendo?

Essa pergunta se tornou ainda mais profunda dentro de mim a partir de uma experiência que marcou minha história de forma definitiva.

No parto da minha filha, por uma eclâmpsia, vivi algo que nunca consegui explicar completamente com palavras. Em meio à dor intensa, houve um momento em que tudo cessou. O corpo silenciou. A dor desapareceu. E eu me vi caminhando por um túnel.

No final desse túnel havia uma luz.

Eu sabia, com uma certeza que não vinha do pensamento, mas de um lugar mais profundo, que, se chegasse até ela, não voltaria. Era a passagem. Era o fim da minha vida como eu conhecia.

E então, naquele espaço entre continuar e partir, eu parei.

Parei no meio do caminho e, com uma força que não sei de onde veio, fiz um pedido:

Eu quero viver.

Não era um pedido leve. Era um chamado inteiro. Um desejo visceral de permanecer, de continuar, de ainda experimentar a vida que eu sentia que não havia terminado.

E, no instante seguinte, as dores voltaram.

A vida voltou.

E com ela, algo dentro de mim também se transformou.

Desde então, passei a buscar compreender o que significa viver com presença, com gratidão, com essa sensação de plenitude que não depende das circunstâncias externas, mas da forma como nos relacionamos com aquilo que nos é dado.

Essa não é uma construção rápida.

É um caminho.

Há mais de vinte e cinco anos venho atravessando esse processo, que não é linear e, muitas vezes, é desafiador. Enfrentar as próprias sombras, rever padrões, lidar com dores que não foram compreendidas no passado, tudo isso faz parte de um movimento de transformação que exige coragem e constância.

Mas, ao longo desse percurso, algo foi ficando claro.

Quando começamos a olhar para as experiências, inclusive as difíceis, com a pergunta certa, algo muda. Em vez de apenas reagir ao sofrimento, passamos a investigar o que ele vem nos ensinar. E, pouco a pouco, aquilo que antes pesava começa a se reorganizar dentro de nós.

A vida não deixa de ter desafios, mas passa a ter sentido, E, quando há sentido, existe leveza.

Talvez não uma leveza superficial, sem conflitos, mas uma leveza mais profunda, que nasce da aceitação, da presença e da conexão com algo maior do que nós mesmos.

Foi assim que comecei a perceber que viver não é apenas atravessar o tempo que nos é dado.

É reconhecer, no agora, o valor do ar que respiramos, da água que nos toca, do corpo que nos sustenta, das pessoas que caminham ao nosso lado e, principalmente, do tempo — esse espaço invisível e finito onde tudo acontece.

Porque a vida, em sua essência, nunca deixou de ser extraordinária, nós é que, muitas vezes, nos esquecemos de olhar.


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