196s - Entre o que vivi, o que sonho e o que realizo: o tempo como matéria da vida ( 31 de agosto de 2024)

 

Existe algo muito sutil e, ao mesmo tempo, profundamente determinante na forma como vivemos: a maneira como nos relacionamos com o tempo.

Não apenas o tempo que passa, mas o tempo que construímos dentro de nós. O tempo das memórias, o tempo dos desejos e, principalmente, o tempo das escolhas que fazemos no agora.

Quando olho para trás, para o tempo passado, não vejo apenas fatos. Vejo decisões, caminhos, renúncias e conquistas que, pouco a pouco, foram moldando a vida que tenho hoje. Vejo os sonhos que já vivi e que, um dia, foram apenas ideias distantes. Vejo também os riscos que assumi, o quanto cuidei, ou deixei de cuidar, do meu corpo, da minha saúde, das minhas relações.

Vejo o dinheiro que ganhei e também o que perdi, mas, acima de tudo, vejo o quanto me permiti viver.

O quanto me permiti ser feliz, proporcionar felicidade aos que caminharam comigo e transformar experiências em aprendizado. Porque, no fundo, o passado não é apenas aquilo que ficou para trás. Ele é a base silenciosa de tudo aquilo que somos hoje.

Mas a vida não se constrói apenas olhando para trás. Existe também o tempo futuro.

O espaço dos sonhos que ainda não se concretizaram, das ideias que ainda vivem no campo do possível, das vontades que ainda pedem forma. Sonhos materiais, sim, mas também sonhos que transcendem a matéria, aqueles que nascem como intuição, como desejo profundo, como algo que ainda não sabemos explicar, mas sentimos que precisa acontecer.

E é entre esses dois tempos que existe o único lugar onde a vida realmente acontece.

O presente.

É no agora que tudo se encontra. É no presente que o passado ganha sentido e que o futuro começa a tomar forma. É aqui que o abstrato se transforma em concreto. É aqui que o sonho deixa de ser imaginação e passa a ser construção.

O presente é ação.

E é justamente nesse ponto que surge a pergunta mais importante de todas: o que nos move a agir?

O que nos faz sair da inércia, romper a zona de conforto e entrar, de fato, na vida? O que nos impulsiona a ir para a arena, mesmo quando o medo está presente, mesmo quando não temos garantias?

Durante muito tempo, acreditamos que a principal força de movimento é o dinheiro. E, de fato, ele é uma moeda importante. Mas, ao longo da minha jornada, fui compreendendo que existem outras moedas, muito mais profundas, que sustentam e direcionam nossas ações de forma verdadeira.

A confiança, por exemplo, é uma delas. A capacidade de acreditar em si mesmo, no outro e no processo cria pontes invisíveis que tornam possível caminhar, mesmo sem todas as respostas. Ela sustenta relações, decisões e movimentos que exigem coragem.

A doação também é uma força poderosa. Quando nos colocamos a serviço, quando entregamos tempo, energia e presença sem a expectativa de retorno, algo se expande dentro de nós. Servir deixa de ser esforço e passa a ser um caminho de crescimento.

A gratidão transforma o olhar. Ela nos tira da escassez e nos coloca na abundância, não pelo quanto temos, mas pelo quanto reconhecemos. É uma energia que fortalece vínculos e abre espaço para que mais vida aconteça.

O amor incondicional talvez seja a mais elevada dessas forças. Ele não depende de circunstâncias. Ele conecta, cura, une. Quando presente, transforma não apenas relações, mas a própria forma de existir.

O perdão, tanto ao outro quanto a nós mesmos, libera. Desfaz pesos invisíveis que carregamos ao longo do tempo e nos permite seguir mais leves, mais inteiros.

A fé sustenta aquilo que ainda não vemos. É a confiança de que existe um propósito maior, mesmo quando os caminhos parecem incertos. Ela nos mantém alinhados, mesmo nos momentos mais desafiadores.

A humildade nos coloca no lugar certo. Nos lembra que, apesar de tudo o que já vivemos e conquistamos, ainda somos aprendizes. E é exatamente essa abertura que permite continuar evoluindo.

E, por fim, a intenção pura. Quando aquilo que fazemos nasce de um lugar verdadeiro, livre de interesses ocultos ou de ego, a vida responde de forma diferente. A intenção alinhada com o coração tem uma força silenciosa, mas extremamente potente.

São essas energias que, de fato, nos impulsionam, são elas que nos tiram da estagnação e nos colocam em movimento.

E é nesse movimento que compreendemos o que Theodore Roosevelt expressou com tanta força ao falar sobre o homem na arena. Não é aquele que observa, critica ou julga que constrói a vida. É aquele que se coloca inteiro, que age, que erra, que aprende, que insiste. Que, mesmo diante das quedas, escolhe continuar.

Porque viver é isso. É entrar na arena.

É se permitir viver com intensidade, com presença, com verdade. É aceitar que o caminho não será perfeito, mas será real.

E, hoje, ao olhar para minha trajetória, posso dizer com clareza:

Eu vivi na arena.
Eu vivo na arena.
E escolho continuar vivendo na arena.

Porque é somente assim que a vida deixa de ser apenas passagem…

E passa a ter significado.


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